Estudo Iniciático — Corpus Hermeticum
Hermes Trismegisto · O Grande Axioma
O Corpus Hermeticum é uma coleção de 24 textos sagrados escritos em grego, contendo os principais axiomas e crenças da tradição hermética. Neles são tratadas questões como a natureza do divino, o surgimento do Cosmos, a queda do homem e as noções de Verdade, do Bem e da Beleza.
Segundo a tradição, foi escrito por Hermes Trismegisto — o "Três Vezes Grande" —, transfiguração do deus egípcio Thoth. Estudos filológicos modernos apontam para uma redação grega original que teria surgido entre os séculos II e III d.C., no Egito helenístico.
As obras de Hermes Trismegisto tiveram uma influência muito importante no desenvolvimento do mundo espiritual do Renascimento, particularmente nas obras de Pico della Mirandola e outros entusiastas da alquimia e do neoplatonismo.
O Corpus se abre com a revelação fundamental: Hermes, em estado de contemplação profunda, é visitado por Poimandres — o Pastor dos Homens, aspecto do Noús absoluto — que lhe revela a origem do Cosmos e os mistérios da existência.
"Um dia, em que comecei a refletir acerca dos seres, e meu pensamento deixou-se planar nas alturas enquanto meus sentidos corporais estavam como que atados... pareceu que se me delineava um ser de um talhe imenso, além de toda medida definível, que me chamou pelo meu nome e disse: 'Que desejas ouvir e ver, e pelo pensamento aprender a conhecer?'"
Corpus Hermeticum · Livro I, §1"Santo é Deus, o Pai das coisas. Santo é Deus, cuja vontade suas próprias Potências cumpre. Tu és Santo, pois que, pelo Verbo, constituíste tudo o que é. Tu és Santo, pois de que toda a Natureza reproduziu a imagem."
Hino de Hermes a Poimandres · §31Extraídos do ensinamento do Corpus e sistematizados na tradição hermética, os sete princípios formam a espinha dorsal da filosofia de Hermes Trismegisto. Encontram eco direto na Maçonaria especulativa, sobretudo na busca da Palavra Perdida e do autoconhecimento.
"O Todo é Mente; o Universo é Mental." — A realidade fundamental é de natureza mental. O Noús é o princípio de toda a existência, e conhecer a si mesmo é conhecer o Criador.
"O que está em cima é como o que está em baixo; o que está em baixo é como o que está em cima." — A lei dos planos análogos: microcosmo e macrocosmo espelham-se. Base do método alquímico e simbólico maçônico.
"Nada está em repouso; tudo se move; tudo vibra." — Da matéria bruta ao espírito, tudo é vibração em diferentes frequências. O Iniciado aprende a dominar suas próprias vibrações.
"Tudo é dual; tudo tem polos; tudo tem o seu par de opostos." — Luz e obscuridade, calor e frio, macho e fêmea são faces de uma mesma unidade. Os opostos são idênticos em natureza, diferindo em grau.
"Tudo flui e reflui; tudo tem suas marés; todas as coisas sobem e descem." — O movimento pendular governa toda manifestação. Conhecer o ritmo é neutralizar seus efeitos através da transmutação.
"Toda causa tem seu efeito; todo efeito tem sua causa." — Nada acontece por acaso; o acaso é apenas o nome para uma lei não reconhecida. O sábio serve de causa e nunca se deixa ser mero efeito.
"O Gênero está em tudo; tudo tem seus princípios Masculino e Feminino." — O Noús criador é simultaneamente macho e fêmea, vida e luz. O princípio gerador opera em todos os planos da existência.
Alegoria alquímica do século XVII · Fundamento da Grande Obra Hermética
"O que está em baixo corresponde ao que está em cima" — o princípio da correspondência universal entre planos. O macrocosmo (Universo) e o microcosmo (Homem) obedecem às mesmas leis. Conhecer um é conhecer o outro.
A separação da Terra do Fogo, do sutil do espesso, representa o trabalho de purificação interior — a Grande Obra alquímica. Subir e descer entre o Céu e a Terra é o caminho do iniciado que integra o espiritual ao material.
No Livro I (§25–26), Poimandres desvela o caminho da alma após a morte do corpo físico. Em cada esfera planetária, o ser liberta-se de uma grilhão que o aprisionava durante a vida terrena — até atingir a natureza ogdoádica e fundir-se às Potências divinas.
| Zona | Esfera | O que a alma abandona |
|---|---|---|
| 1ª | Lua | A potência de crescer e decrescer |
| 2ª | Mercúrio | As tramas da malícia e o engano sem efeito |
| 3ª | Vênus | A ilusão do desejo |
| 4ª | Sol | A ostentação do comando e os objetivos ambiciosos |
| 5ª | Marte | A audácia ímpia e a temeridade presunçosa |
| 6ª | Júpiter | Os apetites ilícitos da riqueza |
| 7ª | Saturno | A mentira que prepara siladas |
"Então desnudo do que havia produzido a armadura das esferas, entra na natureza ogdoádica, possuindo apenas sua própria potência; e canta com os Seres hinos ao Pai, e toda a assistência se rejubila com ele pela sua vinda... em boa ordem, sobem para o Pai, abandonando-se às potências, e, tornando-se potências, entram em Deus."
Corpus Hermeticum · Livro I, §26"Aquele que reconheceu a si mesmo vai para si. Pois é de luz e de vida que é constituído o Pai das coisas, de quem nasceu o Homem. Se aprendes então a conhecer-te como sendo feito de luz e vida e que são esses os elementos que te constituem, retornarás à vida."
Corpus Hermeticum · Livro I, §21 · PoimandresDo Egito helenístico ao Renascimento florentino, o Corpus Hermeticum percorreu um caminho de preservação, ocultamento e redescoberta que moldou a espiritualidade ocidental.
"Por esta razão fui chamado de Hermes Trismegistos,
pois possuo as três partes da filosofia universal.
O que eu disse da Obra Solar é completo."
O hermético que conhece as três partes — a filosofia do Cosmos, a do Homem e a da Obra — possui a chave de toda transformação. Assim como o alquimista transforma o chumbo em ouro, o iniciado transforma a matéria de sua alma.